sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Sobre Amor


O amor é.
O olhar… O olhar também é.
Se você usar o olhar no amor
Vai ver surgir uma infinitude de seres
Dentro de uma só vida,
Dentro de um só verbo
Que mostra seu corpo de acordo
Com o que nosso olhar pode acolher
E que abre seus braços de acordo
Com o que nosso peito anseia receber
Se algum outro verbo se juntar ao amor
Por qualquer acidente comum
Ainda assim, o amor simplesmente é.
E, sem amor, não há quem seja.

Mundo Todo


Todo mundo grita quando acaba a luz
Todo mundo aplaude quando o sol apaga
Nesse todo mundo acho que ninguém viu
Que o mundo todo tá na gota d´água

Também cai quem se levanta
Mais de cem mil vezes
Também vai quem sempre fica
Só matando a sede

Quando o amor não basta
É que ele é amor
Coisa que se basta
Não tem onde por

Porque todo mundo chora quando a vida vence
Enquanto o mundo samba, todo mundo mente
E nesse todo mundo acho que ninguém viu
Que o mundo todo já tá por um fio

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Última Batida



Afinal, que expectativas teria o universo
De nos simplificar a aceitação
Acerca de todas as coisas que não devemos entender?
Que poderíamos fazer além de tentar melhorar as palavras
Adoçar as receitas, misturar as cores fortes às claras,
Assoprar para alguém não se queimar
Assoprar para alguém se ventilar
Assoprar para varrer
Que poderíamos fazer além de esquecer algumas besteiras
Para dar lugar a outras poucas e melhores
(Se é que existe alguma diferença entre besteiras)
Que poderíamos nós – nós, que só sabemos perguntar,
Que poderíamos entender além da dúvida?
Afinal de contas, que perspectivas teria o universo
Para nos apresentar toda essa planície doida de possíveis tropeços,
Toda essa mesmice de montanhas e avessos,
Toda essa beleza chata que é a pergunta...
Afinal, como não esperar um deboche universal?
Não damos a largada na linha de chegada?

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

O Céu Está Cansado


Desde que o mundo é fundo
E desde que eu me entendo por mente
É assim:
Nem tudo que sai do lugar deixa o espaço vago

Quanto mais carros se juntam
Na composição dessa coreografia estranha
E quanto mais gritos se arranjam
Nesse coral sem cor, suburbano
Mais lugares permanecem ali
Apenas assistindo

Enquanto o céu ameaça suar
Respiramos esperanças mofadas pela idade
Contemplamos lembranças passeando a nossa frente
Empurramos tudo, como se não nos faltasse a coluna
Tudo permanece mudo, e não há coisa alguma
Que faça tudo falar

Mas, desde que se anda pra gente
E desde sempre
Nada nunca esteve longe do presente
Os lugares permanecem ali
Rindo disto também

Fortuna


Eu sou uma gente estranha demais
Para não ser cotidiana
E por mais esforço que eu faça
Eu ainda não consigo gostar de nada
Que não dê formiga

E mesmo tudo que há de mais doce e morto
No meu dia a dia
Anda me roubando poesia desde que eu sonho
Em ser gente
E se existe uma categoria de tropeços
Que merece toda minha reza e adoração
É esta:
A ala dos ladrões de poesia

Todas as noites eu faço, por eles,
Um silêncio pequenininho
E volto a respirar
Com a paz de quem dorme e acorda
Com poucas certezas bonitas
E com muitas memórias escritas

Em todos os bares eu peço a mesma dose de saída;
Eu nunca quero ficar.
E não me falta a paz de quem dorme e acorda
Com algumas invejas na bolsa
E com poucas tragédias
Não passíveis de riso

Sorrir é Coisa Séria


E depois de tudo isso
Eu ainda não me fiz entender
Porque não há nada mais sério que um sorriso
E nem mesmo a tristeza merece
Ser tratada com tanta seriedade

De todas as vezes
Que eu tentei explicar as coisas com levas de palavras
Eu só me arrependo de todas
Mais ou menos todas…
E a minha maior fraqueza agora é essa:
Tentar usar palavras
Minhas fraquezas costumam ser mais fortes do que eu
Por mérito delas

E toda vez é assim:
Falo do universo inteiro
Como se ele fosse um pé de qualquer coisa
Totalmente à merce do meu olhar
E ando encontrando gente corajosa o suficiente
Para mentir e me dizer que entendeu
Coisas que eu nem expliquei

Sorrir é coisa séria
E depois de ser minha própria droga
Eu ando querendo ser comum
E sou

Quando a Água é Mar



Hoje, quando tudo pareceu nos conformes
Eu notei que algo estava errado 
Algo como... Tudo, talvez 
Ou uma parte de tudo, tanto faz 
Não me lembro de ter presenciado tanta pressa 
Em desconformar as coisas
Foi rápido. 
Desacrescentei algumas cartas do meu baralho 
Desamarelei alguns sorrisos e vinganças 
Me desesforcei para poder chegar onde quis 
Me ajoelhei para manter de pé o meu nariz 
Fiz tudo sozinho, 
Apesar da larga margem de pessoas onde quebro minhas ondas. 
Porque quando a água sabe que é mar
Podem lhe tirar o sal, pode o sol ir se deitar noutro lugar 
Pode sua margem recuar ou avançar 
Pode até a vida cessar de nadar
Quando a água sabe que é mar 
Ela se faz sozinha de matéria
E colhe sua crença na intuição 
E na consciência
Sua pretensão, sua proteção 

E eu nunca vi um mar infeliz 
Por mais de uma vida

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Esqueci


Das miudezas que eu não quero mais
Essa é a que eu menos joguei fora
Luzes acesas, sapatos, jornais
A casa é só uma sala
Depois que a cor vai embora

Só que isso aqui ninguém quis
É por isso que ficou pra trás
É pequeno, não deu pra dividir
É ameno, ninguém quis sentir
É amônia, ninguém vai engolir
Vira insônia quando é hora de dormir
É insosso, mastiguei só pra cuspir
Mas, ainda assim
Das realezas que eu já me cansei
Bom súdito que sou
Para essa eu sempre me curvarei

Mas, não muito
Porque quem muito se curva
Acaba dando voltas em si

Paredes riscadas, defeitos estranhos, notícias
A casa é só um corpo
Depois que a alma vai embora

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Vertente


Para Wesley Faria


Contratos são assassinados todos os dias
E ninguém se lembra de chorar
O contrato te maltrata,
É melhor por seu nome em outro lugar

Moço, uma hora você vai ter que aceitar
Ou pelo menos gargalhar!
O caso é que, você, não usa terno pra casar
E nem pra se empregar.

Alvoroço, eu sei, eu sempre sei
Quer dizer, eu sempre digo que sei
Vai ser sempre difícil,
Qualquer novo dia vai ser sempre um míssil
Qualquer hierarquia vai ser uma covardia
Uma grande covardia pra você, moço
Que é tão irreversível

E é tão inadmissível
Até mesmo para seus próprios mísseis
Imagina para as missas?
E imagine então para as massas?
É tão inadmissível, moço
Que só pode se demitir de seus cargos e encargos
Antes mesmo que eles se ofereçam a você

Moço, uma hora você vai ter que bocejar
Na frente de tanta gente que toma guaraná
Porque o caso é que você pode desrespeitar
Tudo que te diz respeito;
É seu direito.

Mas, moço, não deixa de comemorar
O fato de que ninguém nem sonhou em concordar
Com o tom do seu bom dia, com a cor da sua alegria
Com o seu jeito de não ligar pra postura,
E com o cansar da sua ternura

Comemora, moço
Por abrir caminho sem maquinário e sem facão
Do seu lado pode não ter corrimão,
Lá em cima pode até ter trovão
Quando cansar, comemora
Lá na frente o seu pai mostra a solução
Olha pra baixo, que esse é seu chão


Para o Bem de Alguém


Mas aí eu inventei essa ganancia
De entender a velhice dos meus dias infantis
E quis trocar as fraldas desses lamentos antigos
Que eu já não sei se são crianças ou não
Só sei que não cuidam de si sozinhos
E que, apesar de já terem caído de inúmeros ninhos,
Ainda não conseguiram ser atropelados;
Ainda não se apartaram das pernas quebradas;
Insistem em ser predadores
Com as asas presas

Agora já dá pra entender a discrepância
Entre o que se faz entre um pedido de paz
E o que nos faz voltar atrás
Sem perceber, a tempo
Que andar pra trás te faz cortar o vento
No pior dos sentidos

Mas aí eu entendi essa concordância
Entre o que eu sinto e os meus sentidos
E, sem perceber, o tempo
Quer andar no pior dos sentidos
Para o bem de alguém



domingo, 29 de julho de 2012

Retrato




De todas as fotos que empoeiraram
Eu sempre fico querendo me lembrar
Do que eu tanto ria

A cada pétala de poeira que chegava
Para fazer morada
Eu fui me descascando,
Até ficar assim
Contra o aborto de outras barrigas
Fazendo aniversário sem encher bexigas
Esquecendo em um segundo toda e qualquer briga
Que não seja antiga

Não sei, mas parece que não deu certo
Nenhuma fotografia traz nada pra perto
Sei lá, parece até que deu errado
Ou então,
O flash da minha memória anda desligado...

Porque de todos os retratos que se retrataram
Nenhum veio me relembrar
Do que eu tanto ria
Será que era só pose?
Será que é, ainda hoje?

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Satisfação




Tem dias em que fica ainda mais evidente
Que tem dias que a minha cabeça não merecia
Ter um corpo
E a única coisa
Que me cabe passar um tempo ensaiando em fazer
É me desculpar por essa bagunça orgânica
Que não vai se matar tão cedo
E, que pode morrer ao acaso, eu sei
Mas, caso o acaso também seja bagunçado
E antes que eu me desvie ainda mais do assunto
Ficam aqui
As minhas mais cínicas e amigáveis desculpas

É que eu não sou lá tão verdadeiro,
Desculpa por isso também
Eu finjo bem porque eu me acostumei
E não desacostumo por pura preguiça
Preguiça de gente
Preguiça de agir por gente

Ultimamente não tem me sobrado saúde
E eu tenho desistido de discutir já no primeiro ensaio de resposta
Não tenho mais persistido nos direitos e nas apostas
Tenho tossido mais do que respirado e, ainda assim,
Tenho achado abusivo o preço do Marlboro

E sabe o que você tem a ver com isso?
Tudo

Então, caso você tenha chegado até aqui
Me desculpa
Mas não é nada disso

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Embarque


A suspensão do meu peito pela manhã
Ainda que seja tarde
É a proa da minha prosa
Na minha viagem meu atraso é pontual
O meu ponto e vírgula veste moletom normal
E não se cogita nada fora da horizontal

São quatro colheres cafeinadas
Pra minha xícara desvairada
E se a água não estiver fervida
Eu é que fico desvairida
Por não ter o que assoprar
Por não ter onde formar ondas
Por não ver nada surfar

Andei precisando de âncora mais pesada
E acabei ficando mais leve, foi fácil e deu certo
Porque aqui, esse leme não me cobra um lema
E essa popa não quer ser meu Papa
Mas, acaba sendo

O esforço do braço pra alcançar a maçã
Mesmo quando a ferida arde
É a proa da minha prosa
Na minha miragem o acaso é opcional
O meu ponto de vista sempre foi bem marginal
E o mastro da minha ida sempre acorda maestral



Emily



Arte: Wesley Faria (www.realejodapoesia.blogspot.com.bt)





Você pode imaginar, mas
Só eu sei pra onde eu olho
E só eu sei dos meus desenhos
E, apesar de toda exclusividade
Só eu sei que quem me pinta
São as cerdas de outros olhos
Só eu sinto que o vento muda
Toda vez que piscam os cílios desse pincel
Mas, daqui pra frente e pra dentro
Só eu sei a cor da tinta
E só eu sinto o chão macio que foi traçado
Sou eu quem rabisca o vazio
Que era usado pra amortecer derrotas
Eu, que ajudo a construir beleza
Muitas vezes nem me sinto parte dela
E eu, que persigo o breu da clareza
Muitas vezes minto ser a sua tela

É só uma brisa
Meu cabelo alisa
Logo o ar se cansa e para
Logo o artista dança
E se sara

Abraço


Deduz, em aspirante previsão
Que a conduta do outro irmão
Vai satisfazer seus segredos
E se decepciona ao perceber
Que nenhum outro ser
Está sob seu poder

Vai segregar seus sentidos
E humanizar os ouvidos
Que escutam seus sussurros
Que ninguém pode saber
E entender que deduzir
Não é confiar
E não é mister confiança
Para amar
Já que a nossa semelhança
Permite errar

Não se ofenda, pelo contrário
Mas eu não te confio
Eu também só te deduzo
Como quem contempla uma tarde
Eu te arrisco com tranquilidade
E faço o mesmo comigo

Não tenho muito a perder
Que não se possa recuperar
Do perdão eu não desvio
Qualquer caminho eu cruzo
E as contas da minha reza
Nos apartam do vazio
E é por tudo isso que eu tanto rio

Toda essa minha alegria descansada
Sou eu quem crio

Troco Errado


Andamos tão cheios de etiquetas
Que nossos valores viraram preços
O egoísmo consome nossas plaquetas
E nossos amores padecem nos leitos
Nossas vidas, tão cheias de letras
Se tornaram simples adereços
Pagamos caro por um carinho
Damos aos amigos as migalhas
Pegamos carona, um pouquinho,
No medo de assumir as falhas
Dia a dia abortamos o afeto
A cada oito horas, um comprimido
Não temos minuto para ficar quieto
Vigiar a velocidade dos segundos
É o que nosso relógio faz primeiro
Morremos pelo fundo de garantia
E deixamos de nascer o dia inteiro
Imagina o quanto a gente se amaria
Se confiássemos menos no dinheiro

Acato ao Maracatu


Caiu um cisco
Caiu Francisco no olho do mundo
Lacrimejou
A pele árida da face da Terra ele molhou

Caiu um cisco
Caiu Francisco nos olhos da gente
Incomodou nossas retinas retas e secas
Descortinou as janelas das nossas lentes

Caiu um cisco
E eu duvido que você não leve a mão no olho
E eu duvido que você não ponha os pés de molho
Na textura dos solos da ciência de Francisco

Caiu um cisco
Um nordestino no destino da nossa gente
Um inquilino que nos aparta a mente
Para cruzar a estrada de chão das ideias
Lá, onde o asfalto nunca fez falta

Caiu um cisco
Caiu porque veio de cima
Mas caiu felinamente levantado
E até mesmo seu silêncio ensina
Que vivemos num grande mangue
E estranhamente a vida se anima
Pisando a lama e com rosto suado
E a gente aprende a ir pra frente
Andando de lado

Caiu um cisco!

Equilíbrio


Só tem você ali.
A confiança presenteada ao olhar
Guarda a mira que inspira equilíbrio.
É como mirra que espelha nosso alívio.
Tudo sempre bambeia por fora,
E quem assiste à imagem sem sentir
Que o peito prevê a hora de cair;
Quem desiste da miragem sem conferir
Se a imaginação desesperada não é milagre;
Quem vê, triste, o seu desejo sumir
Sem arriscar manipular o futuro,
Só vai ver, nisso tudo, um objeto
Inanimado como qualquer ser desprovido de sopro.
Só vai ter, de conteúdo, o peso vazio
Da superfície inocente que cobre a cena.
Pisar acima do chão público
É a inventiva forma de voar.

Café da Tarde


Fazer o que
Se eu me enxodozei desse jeito?
Que mais além
De te achamegar no meu peito?
Tem de ter muita coragem
Pra perder tempo pensando nos porquês
Tem que ter pouca saudade
Pra trocar esse afago por talvez
Encontrar uma frase que explique
Que foi que juntou um no outro
Por que é que, de dois, virou um só
Quem foi que ajoelhou em reza e promessa
Pro Pai do Céu conceder tanto xodó?
Mas tem que ter muita coragem e teimosia
Pra perder tempo pensando no talvez
Que será que aconteceria?
E o que há de acontecer?
Será que resiste a alegria?
E será que a gente entenderia
Alguma razão desmedida e magra
Que se profanasse a vocabularizar
Uma cheiro, um carinho, a olhar por um triz?
Será que resiste a alegria
Se a gente só pensar em ser feliz?
Só sei que eu já te enchuchuzei
Te endocedecoquei, te embenzinhei
E, fazer o que, meu dengo?
Ficar pensando na vida?
Só se for no cochilo do fim tarde
Na nossa rede estendida
E só acordar com aquele alarde
Do silêncio encafezado no cheiro
Que é o barulho que a gente mais gosta
Vem, que a mesa já tá posta

Praça


A vida é um circo
um reflexo
um circunflexo.
E todo agora em que ainda me iludo
é um agudo.
Por ser meio crua talvez eu nem me case
talvez eu me crase.
De qualquer forma,
sempre tenho chão e perna de índio,
pra nunca ficar sem acento.