sábado, 14 de janeiro de 2012

Sadismo



A vida é cheia de presentes
Eles acontecem o tempo todo
Sobretudo entre as horas ausentes
Umidecidas, coloridas de lodo

Acreditar que ontem já passou
É renegar o próprio conexo
Esquecer que quando tropeçou
Um joelho herdou o reflexo

Logo, tudo virou presença
O vento que aos póros empoeira
Ou trouxe vírus de doença
Dando intimidade à cabeceira

Fosse passado, logo esqueceria
O fio da memória, com nós
É anfitrião da íntima romaria
Onde peregrinamos a sós

E depois do agora
Vem o para sempre
O presente da hora
É minuto crescente

O agora é onda, quebra em nós
Não passa disso, e sofre a areia
Nós, um nó, tão desatado algoz
Que com um laço se assemelha

O tempo virou lobo, talvez
Na singela pele de veraneio
Ganhou direção e flacidez
Como relógio fosse espelho

Presente embrulhado, com fita
Que se dispersa entre mil dejavus
Em carniças vivas ele habita
Inda que nos cerque como urubus





quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

É Como Diz


Uma andorinha só não faz verão
Se não tem cão caça com gato
Quem faz a força é a união
Vem galinha, acompanha o pato

E dizem que o segundo a chegar
Já será o primeiro a perder
Aprendi que quem se apressar
Prato cru vai ter de comer

Mas Deus não deixa cobra voar
Eu vejo gente com bem mais veneno
Ter seu próprio avião pra pilotar
E é isso que eu não to entendendo

E só de olhar com quem andas
Já dá pra dizer quem você é
E Jesus também andava com Judas
O diabo tomava com Deus seu café

Dizem que a justiça pode tardar
Mas resguardam nosso conforto
Dizendo que ela não costuma falhar
Perdi a pressa depois que virei morto

E você vai longe se for devagar
Aí eu fico aqui pensando quetinho
Já que o mundo corre sem parar
Vamos é ficar na metade do caminho

As Contas dos Pés

- Com Wesley Faria

Pro ce ssa
'Pra vc, são salvador'
Pra vc são poesias!
Pra outros, profecia!
Pra gente pro te ção
Pro santo que tecia
Pro santo que ora
Pedindo a outro santo que o mau vá se embora
E que volte a calmaria, que o silencio é mais queto depois da gritaria
E a luz entra mais bela quando passa pelo vidro da igreja e pelo altar
E o moço parece tela já que os olhos da menina são pincéis a desenhar
Quando o peito sangra dentro, quando o fogo queima lento o desejo de voar
É que eu lembro da minha terra, e mando a sereia entregar o recado, que um dia inda hei de voltar
Pelas pernas, pelo ar ou mesmo a nado, selo o sonho cavalgado por quem ama o seu lar
Mas nasceu sem endereço, e passou a ter apreço, fez das ruas corredores e nos quartos fez amores,
Não tem cerca nessa casa, e na seca a agua é rasa
Como é rasa sua vida se não for regada a fé, é rasa, seca e moída, feito o negro grão de café
Como é em vão matar a rosa pra provar qualquer amor, não confio nem em político 
E nem em quem mata flor
Não quero ver a flor morta ao lado da procissão, quero a vida aqui devolta, nessa areia do sertão
Que em muito se assimila com meu velho coração, que vive a clamar por agua 
E quem acaba molhada é a minha face seca e rachada
De tanto sonhar com o chão, acordo e morro todo dia, esperando sua leveza
Esperando serventia da água fazer represa
Mas só vejo represália, e cada dia morro um bucado, no pescoço levo uma navalha
E no bolso não tem um trocado
No pé tenho pó e barro, na mão tenho ferpa e calo, de tanto levar facada passei a andar sem sorte
Sem direção, sem norte
Faz tempo que perdi a botina, ganhei calo e machucado, e não me calo se minha retina 
Não se convencer que eu já fui escutado
Se a retina acredita a rotina se fatiga e sei que anida há quem diga que não sou pobre coitado
E tudo que eu tenho na barriga, é um pão bem mal assado, que pelo diabo foi amassado
Mas que já me alegra as lumbriga
E mesmo com gosto de pó, ao menos engana a fatiga que o tempo me deu pra levar
E de repente ouço um batuque e sinto o peito se rasgar, é uma mágica sem truque
Minha Bahia a me esperar
Onde o homem é feito de sangue, de aroma e de orixá, onde o mundo é mais profundo
E o oceano é nosso lar
E a gente mora na areia e dá até pra namorar, toda noite é lua cheia 
E toda onda vem quebrar
É quando o mar me chama 'filho' e a palmeira me deixa descansar
Nessa hora penso e choro dizendo "que bom que voltei pra cá".

Foto: Adenor Gondim

Suor Bem-Vindo

Nego Fugido 

- Oxi, oxente! Paulo? Ave Maria!
Quase que nem lhe reconheço
Oxi, que até Pai Bento já dizia
“Ele esqueceu nosso endereço”

- Ê ê, Tonho, não me falta memória!
Jamais esqueço dessa rua perfumada
Onde mora a Maria, a Julieta, a Glória
Como que esquece dessa baianada?

- E vai ficar aí parado, é homi?
Parece até que não sentiu o chero
Cê sempre foi cheio de fome
A Rita inda capricha no tempero

- Nem se incomode em chamar duas vez
Que o estomago já tá lá nas costa
Ô Rita, saudade de ser seu freguês
Ô pai, muqueca! Minha barriga gosta!

- Vamo logo, ô seu safado
Sente aí pra me contar da vida
Cê deixou todo mundo retado!
Nem me lembro da sua partida

- Ói que eu andei foi muito, viu
Mas num do conta de comer e falar
Vá me contando aí quem mais partiu
E repare, diz que a Preta vai voltar

- Vai voltar não besta, já voltou!
Chegou a pouco, uns dois antonti
Tarra aí, se anunciando que chegou
E já foi logo ver o sol pondo na ponte

- Ah, essa vista só tem na Bahia
O sol vai embora com tristeza…
É no nascer que ele mostra alegria
A quantas anda a lavadera Tereza?

- Essa aí é que nem o Lacerda
Sobe e desce a ladeira três vez
Mas o pé daqui ela num arreda
Olha que a danada fala té inglês

- Falá estrangero é fácil, ô Tonho
Falá brasileiro certinho que é o cão
Tereza, essa sempre foi meu sonho…
Falar em sonho, sabe da Conceição?

- Essa aí tá solta na bagacera
Largou pra trás o malvado do Zé
Sempre me dá bom dia na feira
Tá lá vendendo cocada na Sé

- Pois acho que faltou foi pressa!
Aquilo não é mulher pro Zé bejá
Ói, que eu gostava dela a beça
Tem mais aí do suco de cajá?

- Tem, mas acabou, e me diga
Por onde foi que cê andou?
Essa barriga deve ter lumbriga
Ou então esse prato afundou

- Me deixe comer em paz, vá
Eu num tenho novidade pra você
Quero saber é do meu vatapá
De minha terra, do nagô, do ilê aiyê

- Num venha de conversa não
E chega, cê já tá de bucho cheio
Me conte como é esse Brasilzão
Caba logo com esse meu anseio!

- Ô Tonho, num te iluda não
Que eu rodei essa pátria a pé
De barco, carro, e até avião
E ninguém me fez um acarajé

Nunca me receberam com trio
Nem vi nenhuma casa de noca
Num vi graça nem no mulherio
Cheguei a sentir dó das carioca

Elas acha que sabe requebrar a anca
Mas não, falta nelas um quebranto
As paulista, vixe! Muito branca!
E a peleja pra achar um pai de santo?

Cê vê, rancaram até minha coroa
Nenhum povo me chamou de rei
Chamei um de meu preto, numa boa
Levei foi um processo e me lasquei

Tem mesmo nada pra lhe contar
Que não tenha melhor na Bahia
Fiquei encabulado, decidi voltar
E acho qualquer baiano voltaria!

Não que seja uma terra perfeita
Dá malandro, tem vagabundo
Isso faz parte da nossa receita
O Brasil é a Bahia do mundo

Foto: Nego fugido - folguedo variante do Quilombo, mantido há pelo menos um século pelos moradores de Acupe, distrito de Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano. Encenação que recria, anualmente, tentativa de fuga de escravo, que é caçado e amarrado, para depois comprar sua alforria.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Faltar


Acho que um dos momentos mais desesperadores da vida é aquele em que deparamos, de novo, com algo que não entendemos sob essa nossa "lógica" adquirida através de tudo que já vivemos e não entendemos e buscamos entender e, por vezes desistimos, por vezes escolhemos acreditar no mais plausível, e por vezes esquecemos. É aquela velha história da vida vir e mudar todas as perguntas. As vezes parece que a missão da minha vida é experimentar esses clichês. As vezes parece que não tem missão e nem vida, só experiencia. As vezes parece que eu to é ficando doida, me drogando demais ou de menos, ou que falta ou sobra algum nutriente. As vezes parece que é Deus quem faz isso tudo me encontrar, me sacudir e me dar um chute nas costas, desses que empurram pra frente ou entortam de vez a coluna. E tem vez que parece que é só estresse, ou falta de estresse. Assombrações existem de várias formas: perguntas, clichês, experiencias, drogas, abstinencias, loucuras, lipídios, solidões, vitaminas, açucares, memórias, esquecimentos, divindades, maldades, estresses, vazios, tédios, balanças, ócios, personalidades, vontades, desejos, dúvidas, dívidas, remédios, quadro torto na parede, janela aberta com chuva, resistência de chuveiro queimada, finais de mês, manhãs, sonos, horários, matérias, pessoas, promessas, vícios, enlatados, solúveis, plantas de plástico, madrugadas, cozinhas, mortes, poesias, músicas, dores, prazeres, chás, caquis, mãos, documentos, saudades, fotos, amores, indiferenças, batatas palhas, medos, frios, suores… Mas, acho que nada assombra mais do que o desconhecido. E aí, pensando um pouco (tendo o mesmo dejavu de sempre) fica pior quando você percebe – e você percebe muitas vezes na vida, e esquece – que não conhece nada.
Nem ninguém. Nem você. Nem seus fantasmas e nem seus caçadores.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Comer e Morar



A saudade é uma comemoração
Deveria ter um bolo e balões
Deveriam soltar fogos e rojões
Em uma verdadeira saudação

Comemorar é lembrar junto
E aí eu me faço companhia
E nunca vai faltar assunto
Pra saudar a antiga sintonia

Juntar é abraçar os pedaços
Mas sem precisar encaixar
Só criar coloridos mosaicos
No desenho que me agradar

Pedaços são partes viajantes
Daquele todo que espatifou
Viajam buscando seu antes
Como a foto que amarelou

Viajantes não são, estão
Não têm lugar nem aluguel
Basta boa perna e um tostão
A vida lhes dá tela e pincel

Estão todos os que mudam
E não emudecem sua essencia
Pra que eles nunca se iludam
De que na vida existe frequencia

Mudam todos os que vivem
E ao mudar nossa narrativa
Mesmo os parados se movem
Sob essa nova perspectiva

Viveram os que comemoraram
A velha saudade dos viajantes 
E os abraços que se mudaram
Tecem o valor desses instantes 

Aerodinâmica





Meu mundo é uma sala de espera
Dispenso a revista, eu tiro fotografia
Exploro todo canto com e sem melodia
A paciência é sempre minha primavera

E assim como tudo na vida
Eu vou te deixando pra depois
Não vou nem pensar em nós dois
Eu sempre fui meio esquecida

Agora não, deixa pra depois
Deixa essas outras te terem
Deixa seus poemas lerem
Não vou nem versar de nós dois

Deixa essas cidades te conhecerem
O mundo também merece te ver
Não precisa ser só meu esse prazer
Vamos viver as coisas que aparecerem

Vai, beija bocas, dá abraços
Dá a mão, faça música e ria
Faça rir, dá saudade e inebria
Segue os seus traçados passos

Eu me contento com o cheiro
Daqui eu te alcanço o braço
Mas a mão não acha espaço
Outras já chegaram primeiro

Não nasceu pra olhar paredes
Sua casa é um planeta inteiro
O palco, a rua, onibus, terreiro
Um só líquido para várias sedes

Derrama de si mesmo por aí
Que o mundo fica mais bonito
Cada dia é menos um conflito
Segura pra esse moço não cair

De você eu não quero nada
Já tenho minha garantia
E só isso já me sacia
E me deixa a alma acalmada

Não agora, não tá na hora
Nem tempo seu e nem meu
Ou já teve flor que floresceu
Antes da necessária demora?

Nós dois somos mais que dois nós
E dando volta pra lados diferentes
Os nós ficam mais resistentes
Pra ninguém desatar nosso após

Pois depois que dermos nossas voltas
Tomaremos um café aqui nesse lugar
Enquanto um espera o outro chegar
Pra contar com versar as nossas rotas

Nó na garganta, disso não abro mão
Aperta mais a cada dia de lonjura
E enquanto a alma vai ficando pura
A gente vai ali e já volta, ou não

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Batalha do Ser

Por Richard Bruno

A vida te da golpes que te fazem ver
Sua fragilidade e o despreparo pra viver
Um dia voce aprende a se defender
Mas você se desconhece, você vai sofrer

Pra vida não importa ganhar ou perder
Certo ou errado quem pensa é você
Sua cegueira é tanta em se autoconhecer
Que voce prefere até se esquecer
Que a vida é passageira e logo é você

Sua mente é só desejo
Seu corpo é uma prisão
Seu espirito está frio
Descontrole é o coração

Seu vicio é o outro
Voce não aguenta a solidão
Que te mostra você mesmo
E te tira a razão

Você corre sem direção
Ajoelhar e rezar
Beber e esquecer
É mais facil do que ousar
Saber sobre seu ser

Tragédia Amarela


Amor é amar ela
Amarela, amar ele
Amor é elo
Eloquente, Eloísa
Amor é quente
Quem te viu,
Quem te vê
E na tevê
Amor é cena
Uma morena
Um mármore
Mar de amor
Amor que morde
A morte também ama
Amar-te também, Marta
Amar teta, amém
E desamar é martelo
Que pega no dedo
É doce de marmelo
Que virou formigueiro
Que o diga Marcelo
Que amara Eloísa
Uma morena amarela
Que mudou o critério
E quis amar Marta
Quem te viu,
Quem te vê
Preferiu a mamata
E feriu com martelo
O peito de Marcelo
Que quase chega a morte
Por um desmazelo
De Eloísa amarela
Quem te viu,
Quem te vê
Cuidado Elô
Que todo elo rompe
Quando martelo bate
No dedo do anel
Preferiu a mamata
Ao peito de Marcelo
Eloquente, Eloísa
Sentirás uma brisa
Sugiro que a inspire
Encha de ar o peito
Que esse martelo fere
Colorindo de vermelho
O seu novo critério
Descanse nesse formigueiro
Lembre que largou Marcelo
Que nunca te desamou
Que sua vida desastrou
E seu corpo desalmou
Fique com a Marta
E com a morte
A morte também ama

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Atrasado

Com Gabriel Carelli

Paro há tempos, vejo o tempo
Tempo de sorrir, tempo de amar
Tempo, seja de ir ou vir
Tem hora que a hora nem parece tempo
E tem tempo que não quer me ver rir
Sorrir, sentir…
Há tempos que o tempo me entristece
Sentada, praticamente parada
Há tempos que o tempo emburrece
O tempo todo, meu tempo padece
E seja com álcool, seja com fumo
Eu sempre me aprumo, e nada acontece
E o tempo todo, a gente se esquece
Que o tempo da gente, a gente que tece
E o tecido da vida, se transforma, envelhece
E há quem diga até que rejuvenesce
Se você seguir direito o "modo de uso"
Mudando de hora, mudando de fuso
Viver no tempo que você quiser
E você, que fez o ontem
Nada pode dizer do amanhã
Falar de heróis, ou de filosofias vãs
Cada um ao seu tempo, o que te apetece
Dá até dó do tal tempo, até parece
Quando declaram que ele resolve tudo
O tempo dá um tempo, dá de ombros
Vira e desaparece
Ensina que o dono dos seus problemas
Não é o ponteiro do relógio
Que nada se resolve entre o bater das horas
Que nada se resolve nesse estágio
E a hora se torna eterna senhora
Se torna desculpa pros acomodados
Aconchego pros desanimados
Lição pros desesperados
Um chamado pros mais distantes
Uma saudade do velho amante
Hoje é tempo de ver o tempo
Num poema que se finda numa folha

Amuada


Te abraço e peço baixinho     
Pra Deus passar para mim     
Toda tristeza ou desalinho    
Que teja te deixando assim   

Preocupação num tem que ter
Nem pense que isso me corrói
Me dói mais te ver sofrer
Do que sofrer o que te dói

É normal que eu entristeça
Quando eu te vejo emudecer
E num me entra na cabeça
Porque isso, logo com você?

Você, que dá bom dia pro canarinho
Mesmo que chova e ele cante menos
Ainda que ele avoe pra longe do ninho
Você, que enche as árvores de nomes

E parece que morre um bucadinho
A cada galho que o moço poda
Errado é o fio que cruza o caminho
Energia elétrica que nos acomoda

Você, que me ensina que perdoar
Não é opção, e sim coração
E que a paz só irá perpetuar
Se nos amarmos acima do não

Você conhece tão bem o ser humano
Que parece que deixou de ser um
Te achar divina pode parecer insano
Não te cabe a nossa sujeira e dano

Não te cabe ganancia, nem furia
Quem dirá ódio ou indiferença
A você coube a eterna doçura
E na hora de durmir, a bença

Você se deixou pra trás, sozinha
Cuidou de todo mundo primeiro
Orou, vendeu fiado, arrumou cozinha
Deu abraço, não abriu o berreiro

E agora chega sempre amuada
Me beija a cabeça sem sorrir
Parece que não vê jeito em nada
Alivia a angústia ao dormir

Passa pra mim, Pai
Isso que rouba sorriso dela
Deixa pra ela a vida e a paz
Ela doa amor, faz voltar pra ela

Você é anjo que dispensou asa
E não grita pra pedir socorro
Já já vai ser nossa aquela casa
Com quintal, árvore, e um cachorro

Dom

Para Diego Gonçalves, que tem o dom de ser.

Olha, esse sinal tá errado
Ele fica vermelho pra sua arte
De repende pode tá quebrado
Se bem que ele também faz parte

E olha pra esse tapete, quem pintou?
Ele sim, que era pra ser vermelho
Mas, virou listra branca, cê notou?
Aliás, cê já se olhou no espelho?

A pintura que você fez no rosto
Tá escorrendo entre os dedos
De quem tenta tirar seu posto
E quer doutrinar seus medos

Palhaço é o menino que carrega
O coração na ponta do nariz
É arte pulsante que se esfrega
Na cara de quem não condiz

E fala “olha só o quanto você tá cego
Que eu preciso me pintar e colorir
Olha o tanto de coisa que eu carrego
Pra te intrigar até o sinal abrir”

Eu acho que cê tá nervoso demais
E eu espero que não passe, não
Enquanto suas drogas não forem legais
E o seu sentido for a contramão

Enquanto eles não acordarem
Pra te ver muito além da distração
Eles estão esperando contarem
Como é que flutua esse bastão

Não é difícil fazer coisa flutuar
Ajuda se tiver um pouco de fumaça
Mas quem já aprendeu a se equilibrar
É que enxerga a verdadeira graça

E uns dizem em tom de deboche
“É linha amarrada, ele ainda quer confete?”
Engraçado ouvir isso de um fantoche
Num tem linha também na marionete?

Um coração, nariz, sinal, olho
Acho que vermelho é sua cor
Não deixa sua missão de molho
Que até o invisível pode decompor

Cavaquêro

Para Edimar Zambroni, um feliz aniversário





Crendeuspai! Já é outro dia?!
Peraí, vou me explicar primeiro
É que o tempo dessa poesia
Insistiu em teimar com o ponteiro

E quando a gente pensa que não
Percebe que já passou mais um ano
Eu acho que esse seu violão
É mais gente que muito humano

Ô Pai, cuida desse seu menino
Que o Sinhô deu bondade pra ele
Dá força pra esse peregrino
Que o sol arde e queima a pele

Dá muita saúde pra esse moço
Que a estrada tá nem na metade
Dá sustância pra ele no almoço
Que sustente essa serenidade

Edimar, de areia e de onda
As vista nem dá conta de ver
É de rio, de lago e delonga
Vai versar até a noite ser

Acho que tá faltando um bemol
Vida num era pra ser falada
Me dá um lá sem dó, ou um sol
Vida tem mais é que ser cantada!

Rainha do Lar

Para a minha Rainha do Lar, dona Cris 

Você vira algodão quando me abraça
Seu olhar é Deus quando me olha
O cabelo de seda me desembaraça
Choro e fico seca, você chove e molha

Onde você pisa é endereço da paz
Quando você dorme parece ursinho
Revestido de inocencia que me traz
A vontade de nunca largar o ninho

Eu já nem acho que tens bondade
Acho que a bondade é que tem você
E a julgar pela sabedoria da idade
És criança que preferiu não crescer

De manhã passarinhos cantantes
Te entregam alegria pela janela
Em troca disso levam o diamante
Que é poder, logo cedo, ter com ela

Já deu nome pra árvores e flores
Que estão a te esperar ansiosas
“Bom dia Bia, bom dia Dolores”
Espinho desiste de dificultar rosas

Ensinou que o amor que temos
Não é posse, pois assim adoece
Nasce conosco para que doemos
Senão o peito murcha e apodrece

Impossível descrever de jeito justo
Você não cabe nesse simples versar
Quando acho que sei, você me dá susto
És um poema que nunca vou terminar

Desenhe Tua Família

Para Matheus Rodrigues, que me escuta até quando só me lê

Uma calma que parece infindável
Com simplicidade de expressão
Entendimento até do improvável
Em palavras, risos, gratidão

Anda bem mais distraído que eu
Mas presta muito mais atenção
Se perguntar que foi que sucedeu
Ele te conta com exatidão

Exatamente por ser diferente
É que acaba sem entender
Como pode essa gente descrente
Lhe dizer qual o certo proceder

Não quer divã, ai que teimosia
Já falei que não vai ter remédio
Ao menos não quis engenharia
Se livrou de um baita dum tédio

Tem naquele texto do Foulcaut
A verdade passa pela loucura
Acho que ele não se espantou
Decidiu escolher a ternura

De estudar o mal pela semente
Porque é que a gente silencia?
Qual é a culpa de quem sente?
Porque é que ela faz poesia?

Ele vai perguntando de um lado
E acaba enxergando do outro
Pode até parecer abismado
Mas está nada mais que envolto

E se for parar pra analisar
E separar o trigo do joio
Notará que a função de enxergar
Não foi dada puramente ao olho

Oro a Deus que sempre te oriente
Pra que deixe seu amor içado
E que nós andemos sempre rente
E esse parabéns tá atrasado!

Cerveja Sem Álcool




Esse mundo anda desfazendo tudo
Mas Deus já fez perfeito, qual é?
Ainda descafeinaram meu café
Aí logo de manhã eu já me iludo

“Tem o mesmo gosto, toma logo”
Não, moço, não me apresse não
Daqui a pouco me desentrigam o pão
Ou vão querer assar sem por no fogo

Tudo em nome da vida saudável
Café faz mal, integral invés de refinado
Meu corpo não acha nada agradável
E a cabeça custa a entender o recado

Tudo bem se o amargo for você
Contanto que sorria, seja refinado
Cuidado com o sódio desse patê
Mas tá legal se você for salgado

E muda toda hora, já percebeu?
Esse reporter vive um baita dilema
Uma hora trata o ovo por plebeu
Na outra semana diz pra tirar a gema

Dali sete dias proibe que frite
Só cozido e só uma vez na semana
Espero que um dia a galinha se irrite
Ao invés de ovo passe a botar grama

Porque, a gente chega à conclusão
Que só o verde faz bem à saúde
Mas, se for queimar, dá mó confusão
Também espero que isso um dia mude

Jogar agrotóxico tá liberado
Mas, você não pode plantar sua muda
Que a puliça te prende, drogado!
Anda, come essa uva graúda

Levanta cedo e vai se exercitar
Ao menos três vezes por semana
Beba muita água pra não desidratar
E domingo vá à missa de Sant´Ana

Quando for caminhar, desvie da fome
Ou ao menos olhe para o outro lado
Que esse mendigo vai andando e some
Seu corpinho vai continuar sarado

Aí fazem um programa bem legal
E agora basta você ligar a TV
Pra saber sobre “saúde mental”
Ah, aí já é demais, té mais vê!

Lar Fora de Casa

Para Lucas Tibiriçá e seu punhado de  braço e sobrancelha

Pronde será que a gente rema
Onde é que a gente foi parar?
Aliás, a razão do poema
É cria lá de Itajubá

Agora a culpa eu vou assumir
Vou desfazer já esse embaraço
Eu, com medo de você não vir
Acabei puxando pelo braço

Acho até que essa elasticidade
É pra favorecer o tal abraço
E talvez essa cumplicidade
É que enriquece o nosso laço

Peraí, eu quero falar também
O que é que eu tava falando?
Lembrei! Às onze passa o trem
E já tá a gente cantarolando

Mas voltando ao assunto primeiro
E pensar que cê veio de longe
Fica sempre meio corriqueiro
Mas será que cê tá indo aonde?

Ih, eu voltei no assunto errado
E você nem pra me avisar
Aliás, você fala engraçado
E tem humanidade no olhar

Esse olhar que sozinho sustenta
Suas histórias, da vó e da tia
E essa alegria que te orienta
A sorrir mesmo na agonia

E seja no banho de mangueira
Ou cantando aquela identidade
A gente segue rindo por besteira
E essenciando essa amizade

Eu já sei, não tem mais conserto
Fincou bandeira e veio pra ficar
Vai ficar sempre dentro do peito
Mesmo que o pé pise em Itajubá

Te Oriente, Adão!


“Esse bicho não deu certo”
Pensou Deus, o Poderoso
Bizoiando Jesus, lá no deserto
“Homem, ô bicho preguiçoso!”

E se arrependeu o nosso Senhor
Por vir a terra na pele humana
“Ô, mande aí um ventilador!
Essa orelha é grande mas num abana!”

Papai do céu, aprisionado em Jesus
Percebeu, suando com aquele calor
O quão mais perfeito são os urubus
Que comem podre e num são reclamador!

E então Deus olhou para a barata
Bicho fedido, causador de ogeriza
Pode rancar a cabeça que num mata
Vai ver é por isso que ela aterroriza

Mas, oh só pro animal racional
Nem andar a pé num anda mais
Anda de carrão, na maior moral
Acelera pra frente mas fica pra trás

Agora, vê só a danada da cobra
Levou a culpa todinha do pecado
Tem pecador aí cheio de pé, até sobra
Mas precisa de motor, e ar condicionado

E o peixe, cê já reparou no peixe?
Leva água salgada no zói todo dia
Ou então ele vai servir é de enfeite
Dentro dum aquário na sala de Maria

E cê já viu peixe reclamar da vida?
No máximo ele solta uma bolhinha
Homem cresce e acha a vida sufrida
Achou que ia ser só mamá e papinha

O Grandioso Deus chegou à conclusão
“Alguma coisa deu errado nessa receita
Usei o melhor pó da terra em Adão
E a coisa cismou em não sair direita!”

- Ô Deus, já lhe falei pra pará com o pó
Que isso desanda a receita e a cabeça
Escute um conselho pra desdá esse nó
Sou joaninha, mas me chamo Vanessa

É bem mesmo como o Sô disse
O homi é um bicho fora do padrão
Maravilha é só no mundo de Alice
Aqui a coisa tá na base é do rojão

Eles entendero tudo errado que Sô falô
Eles teima em matar bicho pra cumê
Aí falta comida pra um outro predadô
E só sobra é perna de surfista pra mordê

Eles num entendero foi nada
Quando Sô falou lá sobre a gente se amar
Eles entendero armar, sabe, essas granada?
E agora acha que tudo é motivo pra atirá

Ó Deus, Sô me desculpa o atrivimento
Longe de mim falar mal do seus filho
Mas, isso vem desda época do Seu advento
Foi bem lá que esse trem saiu do trilho

Eu mais a bicharada tivemo uma idéia
Que inclusive foi na base da democracia
E a gente fez assim tipo uma assembléia
Com todos bicho que a gente conhecia

O que a gente quer é melhorá os homi
Num deixá eles morrer aqui sozinho
Hoje eles ligam nem pro que comem
E cedo cedo já querem largá o ninho

Então aqui, que só tem bicho camarada
Cada um vai doá de si uma parte
Pra gente tentá dá aí uma melhorada
Vai dá até pra chamá de obra de arte

O primeiro a doá foi o elefante
Que além do coração, doou a memória
Pro homem se alembrá que refrigerante
Serve só pra aumentá a massa corpória

O mosquito doou a insistência
Pro homem pará de desistir da vida
Mas aproveitá sua malemolência
E não se entregá pro inseticida

O urso doou seu abraço felpudo
Pra ser usado nas tal de guerra
Porque diz que diante desse escudo
Até violência bem braba se encerra

O gatinho manhoso doou a higiêne
Pra que o homem lave sua alma
É bom até esfregá com querosene
Espera que o cheiro já sai, calma!

O cachorro latiu, doou a recepção
Pra que o homi abane rabinho e pule
Quando avistar na rua um irmão
Ainda que a tal coleira o regule

E foi uma doação danada, vixe!
Todo bicho queria doá um troço
E num tinha ninguém ali triste
No final rezamo até um Pai Nosso

E num galope, saiu la do mei do mato
Curria feito o tinhoso quando foge Docê
Tava mesmo faltando o lagarto
Pra ajudá o homem a se refazê

Ele chegou foi bem abafado
Mas logo explicou a razão
Disse que doaria seu rabo
Pra pôr no lugá do coração

Calma, eu também custei pra entendê
É que parece até uma quimera
Esse rabo pode até um pedaço perdê
Que como mágica ele se regenera

Ô Sô Deus, eu sei que falamo demais
Mas nós aqui tamo só tentando ajudá
Sei que eles são sapiens, racionais, mas
Maior sapiencia é ter paciência, e se amá

Ponha a Culpa no Sistema


“É uma vergonha esse quarto
Nem parece filha minha!”
Mas mãe, cê tava lá na hora do parto
Não sei o que cê tanto me apurrinha

Se o guarda-roupa explodir
O máximo que vai acontecer
É o chão do quarto colorir
E desse mal eu num hei de morrer

Pra que é que eu vou fazer a cama
Se logo mais a noite, vou ter de desfazer?
Já não basta as vezes que a gente ama
Sabendo que mais tarde vai aborrecer?

As definições de lugares das coisas
Não são agradáveis à todo mundo
Fosse o contrário, nossas mariposas
Nunca sairiam do casulo moribundo

Tem espaço de sobra nessa Terra
Mas a gente não acerta em dividir
É por isso que a porta emperra
Já te falei pra não por tapete aí

A toalha molhada na cama
A roupa toda samiada no chão
Não sei que tanto você reclama
Se isso não fere nem meu irmão

Ele sim talvez reclamaria
Dessas quatro paredes caóticas
Ele abstrai e entende da entropia
Das minhas moradas apoteóticas

A bagunça tá no olho estranho
Para quem é de casa, tá tudo no lugar
Você acha que eu me emaranho
E diz que eu preciso me organizar

Mãe, entenda uma coisa, eu te peço
A bandeira da nossa pátria definiu
Precisa ter ordem pra ter progresso
Então, se for assim, puta que pariu…

Se organizam enquanto nos explodem
E dão até prêmio pra quem perdoa
Como é que eu vou achar que ordem
Vai me servir como coisa boa?

Larga mão de ser pentelha
A vida é mesmo desarrumada
Para de falar na minha orelha
Dá cá um bejo, ô sua enjoada!

Foco Na Fofoca




Foco na Fofoca

Mas cadê o pai dessa menina?
Isso lá é coisa de moça direita?
Cadê o pai dessa menina?
Vou ficar aqui só na espreita

Sai de casa esticando um galope
Passa na rua toda assanhada
Aposto que procura quem tope
Bancar seus desejos, abusada!

Seus versos lembram sua anca
Larga e volumosa, de parideira
Em cada linha que antes era branca
Tem parto de frase, sem eira nem beira

E ela rebola essa versaiada
Na cara dum monte de escritor
Que ficam até cas calça arriada
Erguem o lápis pra falar de amor

Cadê o pai dessa menina, Maria?
Repara como ela mostra os peito
Dentro do que chama de poesia
E sai amostrando pros moço direito

Menina, dizem até que ela agora
Faz isso com fêmea e com macho!
Diz que pra isso num tem sexo nem hora
E só falando poesia que ela sossega o facho

Mas olha, é mesmo muita rebeldia
Sair de casa e fazer essa besteira
É claro que ela tá de poetaria!
Na rua chamam até de poeteira!

Passa as noites tocando poetas
Parece até um tipo de sina
Vive com boca e pernas abertas
E cadê o pai dessa menina?

E já tá prenha, num te falei Benedito?
Diz que ta parindo poema todo dia
E os menino até que são bonito
Pena morarem num antro de poetaria

Tadinho, eles nem tem culpa
Mas são mesmo uns filhos da... poeta!

domingo, 1 de janeiro de 2012

A de Anta



Saber o paradeiro da parte que falta
E não poder tocar sua campainha
É ainda pior que a solidão que assalta
A morada de quem vive sozinha

Porque antes de saber dessa peça
Era fácil acomodar sua inexistência
Talvez quem se diz peça se despeça
E leve embora meu resto de coerência

Tudo que me falta é uma extensão
Mas uma extensão de mim mesma
Deus devia tá atrasado, ou senão
Saiu correndo e largou a luz acesa

Lá, na hora de criar eu e você
Ele tava atrasado, tenho certeza
Saiu correndo sem perceber
Que a receita era de alma siamesa

E com tantos outros bonitos
Só tive mesmo vontade de olhar
Mas agora, olhos tão benditos
Se abrem me convidando a entrar

Os engraçados que aqui passaram
Fizeram até muito bem pro humor
Mas, nem mesmo piada me recitaram
Meu riso só obedece esse declamador

Dos sobrenomes o seu é o certo
É justo o que meu verso queria
Pega, que é seu todo o mérito
Sozinho o poema não se faria

Regente Genuína

Para Regina Vilarinhos 
Ah, esse seu nome não é atoa
Sua mãe foi uma baita adivinha
E essa voz mais parece garoa
Na hora do café, a tardinha

Queria conhecer essa senhorinha
Escolhida para dever tão singelo
De carregar na barriga a rainha
Descobrindo em si mesma um castelo

“Vou dar o nome de Regina
E vais desbravar mil caminhos
Seu reinado é pra lá da esquina
Junto ao povo desses Vilarinhos”

Na alma é que mora a realeza
Torna em trono a cadeira de bar
Mas entorna que é uma beleza!
Sempre súdita do nosso versar

Tapete vermelho estendido
Entre pedras, terra, cascalhos
Seu sapato ficou encardido
Preferiu não pegar os atalhos

Fica facil entender a majestade
Ao percebermos sua sutileza
Em tratar como rei qualquer idade
Dentre camponeses ou nobreza

Sejam doutores ou marginais
Sejam românticos ou escrachados
Sejam sim ou não verbais
Sejam todos predicados

E porque não os rabiscados?
Tenham a forma que tiver
Formem versos engraçados
Encham de graça sua fé

Dos olhos para fora, só isso
Quer coroar reis e princesas
Pra dentro da pupila, o vício
De manter essas chamas acesas

Por hora não vou me alongar
Teu abraço é como tua face
Todo dia, ao se levantar
Faça-se um favor: se abrace

A Luz Nunca Acaba



A poesia
Ela não exige do poeta
A expressão da verdade do mundo
Pede apenas que pensamento vire letra
Mas, às vezes, quase que por acidente
Muita gente acaba concordando
Até que se verse o contrário

Melancolia
É tinta na ponta da pena
Um combustível irracional aditivado
Aperta com força a garganta do poeta
E até periga morrer aquele que se nega
A deixar escorrer no papel essa senhora
De má aparência e boa consequência

Caligrafia
É quem mostra a urgência do autor
Seu mudar de idéia, e sua direção
Tem verso que acaba subindo morro
Deve ser pra ver tudo lá de cima
E por mais que seja confuso o garrancho
Todo bom coração entende com maestria

Dia a dia
É a encenação da própria poesia
Que encara com leveza a melancolia
E tem mais sinceridade que a caligrafia
Dá oportunidade de ter no olho uma lente
Que transforma tudo em estrofes e versos

A poesia
Rascunho eterno e interno
Está onde quer que queira enxergá-la
E eu desconheço notícia
De alguém que teve, em vida, tempo
De passá-la a limpo

Dois Lugares

Para Thiago El Niño
As águas aqueciam e a mãe sentia
A temperatura de fato se elevou
Sabia que um fenômeno aconteceria
Corre pro leito que a bolsa estourou!

Chegou alterando o clima do lugar
A pele de rostos, tão secos e rachados
Já sentia o cheiro da água a se achegar
O céu era um par de olhos lacrimejados

Era o parto de um fenômeno, de fato
Mas, de olhar pra ele, ninguém dizia
Via apenas o mais comum formato
De um menino que a vó já benzia

E durante toda sua vida ele andou
Mudou de direção sempre que quis
E não teve um olho que num arregalou
Vendo o viajante incógnito, porte de juiz

E não teve um coração que não o abrigou
Já logo na primeira prosa na mesa de bar
E curiosamente o povo todo o apelidou
Com o mesmo apelido, em tudo que é lugar

Num primeiro instante é natural estremecer
Sua presença se equilibra de forma corriqueira
A alguns ele pode transbordar de tanto encher
A outros ele entrega a estiagem e sua poeira

As moças alegram com simples chuviscar
Guardam na memória como fosse um elixir
Não demora que o tempo passe a anuviar
No caso de temporal, elas costumam fugir

Tem companheiros letrados em clima
Barraco forte que guenta chuva de vento
Plantação que nem na seca desanima
Vidas tectônicas em deslocamento

Manifestação sujeita à ação de sentidos
Simplicidade que aponta direcionamento
Até a lua e o sol dançam aborrecidos
Se algo esmorecer seu firmamento

Tenta controlar sua própria urgência
Esse formigamento que parece não passar
Mesmo que por dentro sofra turbulência
Se molda pra ser perfeito abrigo, um sofá


Artifício



Primeiro dia do ano
Roupa branca acorda encardida
E a gente já vai fazendo plano
Pra ao menos garantir a bebida

E a bebida que nos cabe
É aquela que inverte o processo
A breja que a gente abre
Esvazia ao nos encher de acesso

Mas nem garrafa nem fumo
Se atrevem a ser protagonistas
Essa embriaguez é o resumo
Na contra-capa de nossas vistas

Bebemos do sumo do poema
Sabemos que é um ser vivo
Intrínseco de nosso ecossistema
De nível alucinógeno abusivo

É essa a nossa reabilitação
Por mais contraditório que pareça
E cada gole rimado ou não
Desintoxicamos corpo e cabeça

Não queremos a abstinência
Desce logo uma caixa duma vez
E na garganta, aquela ardência
É a voz querendo sair, talvez

Trezentos e sessenta e cinco dias
Até que o pano, de novo, se encarda
E a favorita de nossas rebeldias
É espirrar nele ketchup e mostarda

Que já que é pra sujar e manchar
Então, que seja colorido e tenha gosto
Na rua eles costumam nos apontar
Sem mesmo ter nos beijado o rosto

Peço ao Pai que paciência dai-me
Com o sóbrio e seu ancestral
E agora eu me embebedo on line
Ah, se o mundo não fosse um sarau...

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Traduzido pra Mesma Lingua


Vou tentar fazer um verso
Virar um lenço bem seco
Pronto para ser umedecido
E, se precisar, encharcado

Ele tenta secar essa angústia molhada
Que insiste em lhe lavar a fronte
Mas você joga-o num mundaréu de água
Espera que um suporte absorver o outro

Assim, quem sabe o mar não seca?
E faz aquela embarcação tocar o solo
E ficar, ao menos, parada
Sem mar nem menos, seja alcançável

Porque a falta de esperança
Impede o corpo de boiar
Por estar cansado da promessa
De que a água vai aguentar

No solo seco você sabe onde pisa
E não periga se afogar
Talvez tropece ou escorregue, mas
Tem a certeza de manter o pulmão seco

Que de molhado já basta seu rosto
Onde mora seu impasse eterno
Posso interferir no ancorar de outrem
Sem desrespeitar seu rumo próprio?

Fosse ao menos um barco a vela
Onde o vento, que é amigo
Poderia uivar a favor da meia volta
Ou levar seu corpo na mesma direção

Se eu lhe entregar vários lenços
A fim de que eles virem uma corda forte
Que se possa jogar para te laçar a força
Ou para te salvar da forca

Ainda assim te faltaria o marinheiro
Que foi embora sem lhe ensinar a dar nó
Só sei dar laço, desses que soltam fácil
Porque a beleza assim o regrou

E, me lembrando de histórias passadas
Vi o mar ser aberto com cajado
Vi nele peixes se multiplicando
O vi endurecer e ser atravessado a pé

E só me resta te recordar
Que a mesma força que ordenou
Que o mar se fizesse submisso
É aquela que guia seu corpo

Seu corpo, em sua maioria, é água
É regido pelo mesmo maestro do mar
Que me diz que ainda nessa sinfonia
N´alguma nota os dois vão se encontrar

Essa vida é um desacerto
Promessas para ter sonho realizado
E rezas suplicam para que o passado
Nem em sonho atravesse o travesseiro

domingo, 25 de dezembro de 2011

Pra Você Ler


Queria que sua existência me bastasse
Pra me satisfazer só em te observar
Queria que seu braço me apertasse
Pra me impedir, de novo, de me afastar

Eu tenho que dar um jeito de sumir
Com essas pistas que me tornam suspeita
Daqui a pouco já vai dar pra ouvir
O quanto o seu simples mover me deleita

Passa pra lá e vai rir com alguém
Quanto mais te vigio, mais te perco
Passa pra cá, traz o seu blém blém
Me deixa cantar e abre esse cerco

Não pára de falar, deixa sair da boca
Que eu acho que a palavra até envaidece
Sendo entoada por voz levemente rouca
Tenho até dúvidas se meu ouvido merece

Me deixa durmir, que já é amanhã
Sai da minha cabeça! Ou entra por essa porta…
Ou pára de me servir como casaco de lã
Ou me abriga de uma vez ou me aborta

Não, não ri tão fácil pra mim
Cê não vê que isso só me piora?
Não dou conta desse riso tão mirim
Que vira um ímã e me demora

E nada me livra da expectativa
Desse meu sentir ser possível
Desse seu sorrir que me cativa
E nada me livra do imprevisível

Qual será a ferramenta que desconstrói
A beleza que envolve esse desejo
E força o sujeito a virar príncipe e herói
Chega a brotar candura até no seu bocejo

De repente o motivo da recorrência
De tanto sentimento desconfiado
É que o poeta se usa da carência
Pra ficar ainda mais agoniado

E fazer tudo virar verso bonito
Torcer que alguém, entre vírgula, se veja
Em algum ponto desse perene conflito
Entre o que se supõe e o que almeja

Me Tacaram Betacaroteno



Senhora Cenoura, quero dizer-te
O quanto me alegras o almoço
É lindo quando nadas no azeite
Não és amarga e nem tens caroço

Eu te cozinho e te sinto adocicar
E fico ansiosamente curiosa
Para descobrir no meu paladar
Se tens o mesmo gosto da prosa

Queria saber se seu ciclo erra
Por ser o contrário dessa humanidade
E começar lá debaixo da terra
Onde jaz os que me dão saudade

Que te aconteceria na vida
Se te deixássemos enterrada?
Cê se sentiria agredecida
Por não ter virado salada?

Eu só sei pisar a terra, mas você
Com esse seu nascer subterrâneo
Já deve ter conseguido perceber
Onde se pode ser mais espontâneo

Acho que já fomos vizinhos lá no Éden
Onde o homem brotou do pó da terra
E pelo nível de pecado é que eles medem
Se a porta do céu abre fácil, ou emperra

Ah, ando preferindo virar salada
Sem precisar pensar no sentido da vida
Não importa se cozida, ou crua e ralada
Teria ao menos garantia de ser bem comida

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Ideais

 

Oh só pra essa petulante mania
Que esse povo tem de insistir
Em recitar música e cantar poesia
Fazendo até moço brabo, sorrir

Chega um assim meio acanhado
Desses que te olha assim de baixo
E caminha mei desconsertado
Rio Brandão que aparenta riacho

De repente, cê já tá hipnotizado
Respiração no compasso dos versos
E o resto fica tudo embassado
Leia aí só mais uma, eu te peço!

A coisa toda já tomou conta dela
Não sabe se recita, se canta, se chora
Pra ela decidir basta a gente dar trela
Elisa é lisa e se encaracola sarau afora

E aquele ali ainda diz que é de mar
A rima é doce, lhe dê um Sol pra ver
Edimar de mansinho toma seu lugar
Faz música assim, como quem nina bebê

No intervalo duma canção bonita
Me chega esse cabra arretado
Wesley com artigos, és lei bendita
Queria aprender seu palavreado

Ai, que o peito parece que num guenta
Nunca vi tanta riqueza ajuntada
Vem minha vó, traga uma água benta
E tome tento com essa rima virgulada

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Carvalho


Para Elisa Carvalho e seus ramos, flores, frutos, raízes, vida...


Já existia bem antes de você
Dizem que data mais de mil anos
Natureza perpétua, agora cê vê
Esse nome tá longe de ser engano

A gente pensa que é só um arvoredo
Mas a cada novo galho que contamos
Dá logo pra ver que ali tem segredo
É um só nome, para vários ramos

E no final de cada um, tem fruto
E nenhum deles ousa apodrecer
Só fazem alimentar o canto astuto
Dos passaros que vêm amanhecer

Guarda consigo o registro precioso
De chuvas e tempestades passadas
E a cada pé d´água doloroso
Enraíza ainda mais suas jornadas

Com o temporal, seu tronco revigora
E não há um pingo que sinta coragem
De ousar derrubar essa história
Desde o solo até sua folhagem

E mesmo com esse assédio natural
Que a vida insiste em querer forçar
Ela não se revolta ou deseja o mal
Se o vento balança, ela põe-se a dançar

Quer ser morada para toda vida
Que a rodeia com simplesa e canto
Ternura que chega a ser desmedida
Com uma força de causar espanto

Vê poesia em grade na janela
E registra tudo em fotografia
Já devem ter avisado a ela
Que essa árvore dá poesia

Pára, Amélia...


Deixa nosso amor no fogo baixo
Que é pra gente ficar despreocupado
Tem perigo de queimar não, amor
Da pra saber pelo cheiro

Varre nossas brigas pro quintal, dengo
Deixa que o vento leva pra longe
Essa sujeira que tem hora que gruda
Vem cá, já já ele sopra essa poeira

E chega dessa lavação de roupa suja
Oh, chega um dia que a roupa gasta
Compra lá aquele amaciante
E deixa isso aí só de molho

E agora cismou de tirar teia de aranha
Naqueles assuntos, daquela gaveta
Tão lá guardados, deixa lá, amor
Deixa que a aranha cuida deles pra nós

Larga do jeito que tá
Que o que não tem remédio
Remediado está
Desliga o aspirador

Chega de arrumação, meu bem
Vamos deitar e ver televisão
Finge um pouquinho que tudo tá bem
Abraça eu, que eu não sou de mais ninguém

Ele Faria


O poeta é mesmo um teimoso
Leva na ponta do lápis o coração
E requer de um certo tempo ocioso
Só pra versar seu não-ganha-pão

Ah! Queria mesmo é viver da emoção
Que conto e declamo em tom de paciência
De repente vira até uma canção
Um concerto que dispensa regência

Mas enquanto a arte for um semi-nada
Pra essa gente que (não) nos representa
Só me resta a carteira assinada
Que só com o pão me sustenta

Preciso ter a alma nutrida
O corpo aceita qualquer carboidrato
Poema é refeição bem servida
Só queria que bastasse esse prato

“Estude, seja alguém na vida!”
“Arruma um serviço fichado!”
A simpleza anda meio esquecida
Muitos tentam me deixar calado

Eu chego até a achar graça
Desses senhores tão estudados
Que só querem dar liga na massa
Prefiro os analfabetos abestados

Bença, vó

Dona Imaculada

Nunca tive brinquedo de presente
Só passava, varria e limpava
Reclamasse, chinelada na gente
Num sabia se lavava ou chorava

Casei foi pra ter minha liberdade
Mal conhecia o tal do marido
Sorte, ele era todo bondade
Católico, alegre, não muito cumprido

Só me veio mesmo filha mulher
Criei todas bem na linha dura
Ninguém tratou delas feito qualquer
E nunca que faltou ternura

Só agora percebi que liberdade
É ser viúva numa casa vazia
Com remédio pra aumentar idade
E no domingo, três Ave Maria

Por ter medo de durmir sozinha
É que ficar velha é uma merda
Bem pior até que erva daninha
E a tal genética que a gente herda

Abre as portera da gordura
Antes eu era um esqueleto
Esses anos roubam formosura
Essa vida é mesmo um desacerto

Y da Silva



- Oi moça, boa tarde
Desculpa meu bucado de pressa
Meu caso é mesmo de fazer alarde
O dotô atende uma hora dessa?

- Não se chega assim de surpresa
Num balcão de atendimento
Não posso nem lhe dar certeza
Vou ver como tá o andamento...

Volte amanhã depois do almoço
Que lhe arrumo um horário apertado
Mas não repita isso, viu moço
Não me chegue aqui tão apressado!

- Oi seu médico, boa tarde
E obrigado por ser tão gentil
O peito me dói, e pra dizer a verdade
Multiplique isso por bem mais de mil

- Boa tarde, seu moço apressado
Venha cá que eu afiro a pressão
Esse pé parece um pouco inchado
Pelo visto tá em dia o coração

- Ô dotô, num me diga isso não
Que esse caso é grave, periga dar morte
Diga a verdade, enquanto eu faço oração
Me diz, quanto eu vivo caso tenha sorte?

- Rapaz, seu coração bombeia bem direito
As vistas e a coluna tão em ordem também
Diga, que mais sente além de dor no peito?
Andaste mesmo apanhando de alguém?

- De um só não, dotô
Pelo menos uns milhares vezes mil
Me escuta direito pufavô
E nem vem com a tal bezetacil

Essa é uma dor bem diferente
É de toda gente nascida comigo
Acho que minha geração tá doente
As vista só quer enxergar o umbigo

- Ô moço, então é esse o enfisema?
Primeiro pega um papel e uma caneta
E escreva assim em forma de poema
Que não vai nem precisar de receita

Saindo daqui corra na drogaria
E compre absolutamente nada
Não há veneno que inverteria
Caso de geração envenenada

Essa receita né pra remédio não
Dois ovos, leite, açucar, trigo
Mexa tudo, unte a fôrma com a mão
Ache alguém pra tomar café contigo

Corra ao laboratório e peça
Um exame de pulsação
Abrace a atendente e ela que meça
Se a batida sobe ao se aproximar coração

Tome a última dose de cura do dia
A todo que passar, dê compaixão
Dê, no mínimo, uma alegria
Pra dona rica e pro catador de papelão

Além da esmola, dê também a mão
Mostre interesse, além de só escutar
O consumismo é uma contramão
É em pessoas que devemos apegar

Volte a agendar consulta
Se achar que há necessidade
Espero que mude a conduta
De urgenciar tanta agilidade

- Ô dotô, sô me desculpe
Escrever a mão dá até um pavor
Vou em casa pegar o notebook
O senhor repete se eu pedir por favor?

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Certeza





Para Bruno, meu irmão, meu poeta, meu nenho, meu cúmplice 


Na teimosia de querer aproveitar
O silencio da madrugada calma
Fiz até prece pra procurar
Uma coisa que sustente a alma

Queria entender a razão estranha
Do cantar do galo no meio da noite
Mas que raios será que ele ganha
A essa hora com todo esse açoite?

E o gato que foge de casa
E vai lá pro asfalto miar
Se esse bicho nascesse com asa
Não demoraria a se endeusar

Por aqui cada um tem um jeito
Diferente de se enganar
Que será que leva o sujeito
A demorar tanto pra deitar?

Nessas coisas você já pensou
Madrugadas-luz na minha frente
Quantas vezes esse galo cantou
Enquanto você rangia a mente?

Uma caneca sob medida
Pra abrigar a santa cafeína
E essa guimba morre decidida
A deixar pra trás a nicotina

Essas coisas de vício carregam
Uma simplicidade em rimar
Nesse trago que um dia te negam
Ao dizer que querem te salvar

Dá saudade é daquele ninar
Escutar mesmo sem entender
Que se passa com a rainha do lar
Que não tem gostado de viver?

Ele aprende a decorar os livros
É isso Deus, que é dialogar?
E será que essa ovelha se livra
Desse vício de se alinhar?

Ela não lembra muito da escola
Mas aprendeu matéria importante
Quem só decora o livro se enrola
Na hora de amar seu semelhante

Entre briga e arrebatamento
Entorpecemo-nos de confusão
Registro o agradecimento
Por ter o braço de meu irmão

Irmão é casa de árvore no quintal
Pronde a gente corre e encontra abrigo
Quando quer nada além do normal
Só alguém que respire contigo

É beira da praia em baixa temporada
Onde a gente caminha tranquilo
O mar chama a areia de namorada
Mas a onda mantem seu sigilo

Saber que você tá por perto
E sempre poder pegar sua mão
Entender que nem sempre tá certo
Quem se vale apenas da razão

Poder exercer a breguice
De achar paz nesse seu dormir
E eu acho que eu nunca te disse
Mas você até costuma sorrir

Não preocupa com tua incerteza
Essa dúvida elogia a reflexão
Dizem até que o certo é a beleza
Que mora la dentro da televisão

Família é embriaguez maquiada
Uma coca-cola depois da cachaça
Pode tá com a cabeça arriada
Mas passeia de pé pela praça

E é bom que nem coca e cachaça
Deve ser por isso que eu insisto
Em brigar com qualquer ameaça
Que atrapalhe seu sono esquisito

Tem quatro lugares no sofá
Normalmente ficam três vazios
Quatro pessoas a se indagar
Pra que uma casa com tantos fios?